Fred Astaire – Dançarino genial e uma belíssima voz.
Fui convidado a dizer alguma coisa sobre como bailarinos se sentem a respeito de Fred Astaire. Não é segredo que nós o odiamos. Ele nos cria complexos porque é perfeito demais. Sua perfeição é um despropósito, difícil de aceitar… E lembra-me a observação de Ilie Nastasie a respeito de Bjorn Borg: “Nós estamos jogando tênis. Ele está jogando outra coisa”. Fred Astaire, nós estamos dançando, mas você está fazendo outra coisa. – Mikhail Baryshnikow.
Todos que gostam de cinema lembram dos grandes musicais. Lembram também de alguma cena com o inesquecível Fred Astaire. Mas além de genial dançarino, ele também cantava muito. Possuía o dom de dar vida à letra de uma canção, tornando o sentido da letra mais importante do que a maioria dos outros cantores podia ou conseguia naquela época.
Embora muitos pensem apenas sobre o exímio dançarino, Fred Astaire foi um cantor consumado – basta ouví-lo cantar nos seus filmes musicais. Um número notável de grandes canções populares norte-americanas foi escrito para ele e lançado por ele: Night And Day, Cheek To Cheek, A Fine Romance e They Can’t Take That Away From Me. Os gênios George Gershwin e Irving Berlin consideravam-no o intérprete ideal de suas músicas.
Mas o que Fred Astaire achava da própria voz?
Horrorosa! Bem, não tão ruim assim, acho. Eu não sou tiete de minha voz de cantor. Acho que a principal razão para estar satisfeito com ela é que compositores gostam da maneira como lhes canto as músicas. Mas eu estaria falido se houvesse tentado ser apenas cantor.
Não Fred, você não estaria falido…
José Carlos Oliveira – o Carlinhos Oliveira.
“Sou Carlinhos Oliveira, o bem-amado,o mulherengo, o espirituoso, o imprevisível.” – Na crônica “A Volta de Carlinhos Oliveira.”
Só Carlinhos Oliveira escrevia como Carlinhos Oliveira. Não era do cinema nem da música, mas convivia e era amigo dos maiores da sua época. Com Vinicius e Tom viveu histórias no lendário Bar do Antonio’s. Personagem ímpar de uma festiva Ipanema das décadas de 60 e 70. Cronista e romancista. Diariamente escreveu num Jornal carioca, de 1961 a 1983, e nos quatro romances que fez poucos felizardos leram, pois as tiragens não obtiveram o retorno financeiro desejado pelas editoras.
Uma crônica que destaco foi a que escreveu no dia 29 de outubro de 1966 para a Revista Manchete – atual até os dias de hoje. Está no livro “O Homem Na Varanda do Antonio’s” (Ed. Civilização Brasileira, 2004)
Receita de Viver
Para viver bem é preciso chegar aos 30 anos com a satisfação de se ter permitido todas as loucuras imagináveis na juventude. E só freqüentar os amigos que suportam os nossos defeitos.
Recomenda-se também uma boa gargalhada, à sós, no momento de se erguer da cama: “Quanta bobagem tenho feito neste mundo! Quá, quá, quá!” A serenidade imperturbável conduz ao fanatismo, e este dá câncer.
Nenhuma preocupação burguesa ou pequeno-burguesa, como por exemplo o medo de perder o emprego ou os bens; nenhuma ambição material, fora as indispensáveis (casa, comida, roupa lavada), ou então que seja gratuita: juntar dinheiro para algum dia comprar um iate ou passar dois anos zanzando pela Europa.
Nunca ferir uma mulher a ponto de fazer-se odiado por ela. O homem inteligente é o que sabe transformar antigos amores em sólidas amizades.
Estar sempre em condições morais de perder tudo e começar tudo outra vez. Interessar-se por tudo, principalmente por aquilo que não nos diz respeito. Amar apenas uma mulher de cada vez. Dizer sempre a verdade, seja qual for e doa a quem doer. Conhecer um por um os nossos defeitos, curar-se dos que não são naturais e cultivar aqueles que mais nos agradam.
Evitar ao máximo o paletó e a gravata, os chatos que falam no ouvido, as mulheres que resolvem tudo pelo telefone, os bêbados que mudam de personalidade quando lúcidos, os vizinhos muito prestativos e todo papo do qual participem mais de três pessoas.
Longa caminhada solitária pelo menos uma vez por semana. Não discutir preços – é melhor ir embora sem comprar. Não guardar ódios a ninguém. Dormir oito horas e, acordando, continuar na cama enquanto puder. Recusar-se terminantemente a beber uísque que não seja escocês legítimo, preferindo a cachaça como alternativa. (Isto vale apenas para quem gosta de beber e bebe freqüentemente, como é o caso do autor dessa receita. Neste caso, a aceitação de qualquer bebida é moralmente inquietante, pois atravessa a fronteira que separa o prazer do vício.)
Ser condescendente com o comportamento sexual dos outros. Tentar compreender cada pessoa, evitando julgá-la. Saber exatamente o momento em que os amigos gostariam de estar sós. Ter caráter bastante para reconhecer as qualidades positivas de um eventual inimigo. Treinar, como quem faz ginástica, para ser sinceramente modesto. Saber contar com irreverência histórias em que faz papel de bobo, e que tenham acontecido realmente.
Viver tão intensamente que possa dizer à morte, quando vier: “Já veio tarde.”
As histórias vividas por Carlinhos de Oliveira, o maior boêmio do Antonio’s, dariam um filme sensacional.
Zé Trindade – “O que é a natureza!”
O Zé Trindade foi o único artista brasileiro a conseguir um sucesso talvez maior do que o do Oscarito em determinada época do cinema. – Chico Anysio.
Zé fazia o mulherengo, o safado, o sabidão. Até hoje consigo rir das suas caras e bocas, além das tiradas geniais. Grande comediante brasileiro, de rádio, cinema, teatro e TV, lembrado por poucos. Lá pela Bahia, onde nasceu, tinha fãs de peso: Jorge Amado e Dorival Caymmi. Baixinho com um bigodinho fino (em alguns momentos lembrava o “Amigo da Onça” do Péricles), ninguém dava nada, mas enlouquecia as mulheres. Criou frases que marcaram época: “O que é a natureza”, “Mulheres, cheguei” e “Meu negócio é mulher”.
Na década de 50 chegava à Rádio Mayrink Veyga num Bel-Air 53, zero-quilômetro, um dos carros mais caros e luxuosos da época. Mas o dinheiro do carro não veio da TV nem do teatro – veio do cinema. Filmes (atuou em 38) com grandes arrecadações: “O Malandro e a Granfina”, “Na Corda Bamba”, “O Batedor de Carteiras”, “Espírito de Porco”, “Entrei de Gaiato” e “Marido de Mulher Boa”.
Zé Trindade - sensacional.
“Laura” (1944) – “Ele está apaixonado por um cadáver”.
Um filme noir é caracterizado pelo seu aspecto sombrio, envolvendo detetives ou gângsteres. “Laura” faz parte de um grupo seleto de um estilo que também se destaca pelos ambientes esfumaçados e com raízes no cinema expressionista alemão.
Na trama, tudo contribui magistralmente para um noir que admiro: mulher fatal, investigação policial com muitas reviravoltas e grandes atores em sintonia. Em certo momento, um dos personagens diz: “Ele está apaixonado por um cadáver” - frase que se tornou clássica com o passar dos anos, se referindo ao detetive Mark McPherson interpretado pelo ator Dana Andrews. O elenco tem ainda as presenças marcantes de Clifton Webb e Vincent Price.

A atriz Gene Tierney está no auge da beleza – um rosto belíssimo, ar misterioso e uma sensualidade impressionante. Trata-se de um clássico do filme noir com um roteiro perfeito e direção firme de Otto Preminger.
O tema musical se encaixa perfeitamente – “Laura”, de David Raksin e Johnny Mercer, na voz do Frankie.
Uma sensível crônica e uma canção para um dia de fossa.
Airton Monte é um cronista que escreve num jornal de grande circulação aqui no Ceará. Certa vez, ele concedeu uma entrevista ao jornalista Renato Abreu, apresentador do programa “Sinatra & Amigos” que é transmitido pela FM Assembléia (Programa que tive a honra de participar e colaborar durante um ano), e falou sobre o ídolo Frank Sinatra. Mas eu já sabia da sua admiração pelo mito Sinatra, pois o que mais me chamou a atenção foi uma crônica que o Airton escreveu no Jornal.
THE OLD BLUE EYES – Airton Monte
Em plena quarta-feira de cinzas, vou me lembrar que ouvi Frank Sinatra pela primeira vez ainda estava na barriga de minha mãe, fã de carteirinha dos Velhos Olhos Azuis. E olhem que Sinatra já era Sinatra, a Voz já era a Voz, já era lenda. Se há homens que fazem a própria lenda, Sinatra foi um deles. Aos 15 anos, pensava eu que a trilha sonora do Século Vinte fosse o rock.
Depois, quando adulto, imaginei que fosse o jazz. Hoje, aos 53 anos, descubro que a trilha sonora do Século Vinte foi Frank Sinatra. A Voz, os Velhos Olhos Azuis e seu estilo. Dizem coisas boas e ruins de Sinatra. Falam mal e bem de Sinatra. Entanto, admiradores e detratores viram unanimidade quando se trata do talento de Frank e seu estilo. A Voz tinha, na medida quase perfeita, aquela refinada mistura que une a técnica à emoção. Cantava como se batesse papo com o público.
Tinha tanto estilo que qualquer roupa que vestisse perdia a griffe, tornava-se Sinatra. Frank era um Midas da personalidade. Tudo que tocava se transformava em Sinatra. A vida é boa de viver, porque a morte é muito chata, costumava dizer. Sinatra viveu a vida que desejou viver e do seu jeito. Sempre fez o que queria do seu jeito, por isso tinha estilo.
Dizem que era um sujeito durão e era. Que era amigo de mafiosos e era. Que era amigo fiel dos amigos e inimigos implacáveis dos inimigos e era. Era praticamente tudo que se dizia dele. Nem bom nem mau, apenas um fantástico artista, era Sinatra. Há tempos, a Voz calou-se, os Velhos Olhos Azuis viajam outras paisagens, talvez em busca de Ava Gardner. Sinatra morreu. Mas afinal, Frank, você sempre esteve a um passo da eternidade.
O dom de escrever está no sangue do Airton Monte, a crônica escrita numa quarta-feira de cinzas é bem boêmia - um dia perfeito para um “Only The Lonely”. Sobre o Frankie é uma das que guardo com carinho.
Humphrey Bogart era um brigão marrento sensacional.
Que Bogart fugia ao padrão hollywoodiano, não é segredo. Muitas vezes durão e briguento tinha uma personalidade forte e envolvente. Era querido pelos amigos que nunca o abandonaram. Mesmo debilitado da doença que o matou, Bogart obtinha forças para os amigos que o visitavam religiosamente todos os dias, sempre ao final da tarde. Tomavam uns drinques e batiam um papo.
Bogart era uma criatura estranha ao ser visto pela primeira vez com seu humor sardônico e seu rosnado que passava por sorriso. Levei algum tempo para perceber que isto era uma camuflagem cuidadosamente preparada para encobrir um dos corações mais amáveis e generosos que conheci. Mesmo assim, ele não era um camarada fácil de lidar e antes que você tivesse a permissão de olhar por baixo de sua pele e dar uma olhadela verdadeira para o homem real, teria de ser primeiro posto à prova. Acima de tudo, você tinha que demonstrar decisivamente que não era falso. – David Niven
Quando Bogie se foi, os amigos, com certeza, sentiram muita falta.
Quando você sentir um forte cheiro de rosas, meus pêsames…
Alto, olhos azuis, terno bem cortado, extremamente galanteador e popular entre as mulheres. Benjamin Siegel, Bugsy, (apelido que odiava) era um psicopata. Mesmo quando cometia os crimes mais abomináveis, mantinha a freqüência cardíaca em 11×7 (sim, os médicos dizem que esta é a ideal). Ele mesmo gostava de matar as suas vítimas. Sentia prazer em vê-las gemendo até o último suspiro.
Bugsy Siegel, responsável pela transformação de Las Vegas na Meca do jogo, estava em casa no começo da noite do dia 20 de junho de 1947, sentado num sofá do andar de baixo, lendo o Los Angeles Times, na presença de outro amigo mafioso, quando nove balas foram disparadas na sala. A primeira atingiu Bugsy na cabeça, arrancando o seu olho (foi encontrado a 4,5 metros de distância do corpo), as outras balas atingiram as costelas e os pulmões.
O Cassino Flamingo, após a sua morte, teve um sucesso estrondoso. Mas hoje em dia os proprietários fazem questão de esconder o passado (impossível e uma tolice). O Filme “Bugsy” (1991), com Warren Beatty e Annette Bening, tem o roteiro baseado na vida do mafioso. É um clássico com uma reprodução da época e figurino irrepreensíveis.
Dizem que Bugsy era um grande jardineiro, cultivava rosas. No livro “Cidade das Redes” (1986) o autor conta um boato que ele usava uma fórmula secreta para manter as rosas do seu jardim bonitas e com um vermelho intenso. Outro papo é que o Gângster sentiu cheiro de rosas quando estava para ser assassinado. Por isso, nem jardim eu tenho. Moro em apartamento.
Dinah Washington é 10.
Solte a voz Dinah, você é perfeita para este final de tarde.
Ela dizia: “Posso cantar qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo: jazz, pop, rhythm & blues, gospel.” Podia sim…
O Jason enviou duas raridades.
Agradeço ao meu amigo Jason Stone (blog:boanoiteeboasorte), apreciador do belo, gourmet, amante do jazz e de lindas mulheres, que presenteou-me com duas fotos raras, as quais repasso para os amigos freqüentadores do blog.
Vai também a sua mensagem na íntegra – gostei e concordo plenamente.
Sávio amigo,
Seguem dois anúncios “daqueles tempos” em que as mulheres ainda não eram siliconadas e tudo era real e de fato. Mesmo assim, reconheço que nada tenho contra a beleza construída, apenas fiz uma observação.
Vi a curiosidade e me lembrei de você nesses dois belos anúncios do Sabonete Lux.
Aquele abraço fraterno.
Jason Stone
Joan Fontaine, atuou nos clássicos “Rebeca, A Mulher Inesquecível” (Rebeca, 1940) e Suspeita (Suspicion, 1941). O que pouca gente sabe, é que Joan é irmã da também atriz Olívia de Havilland, a “Melanie de “…E o Vento Levou” (ainda viva e provavelmente a única sobrevivente daquele clássico).
Joan é cidadã inglesa, nascida em Tóquio, Japão, em outubro de 1917. É preciso estudar o gene das duas, pois ambas estão vivas, porém, conforme escreveu a saudosa jornalista Dulce Damasceno de Brito, foram rivais nas telas e até hoje não se falam. (quem sabe possam fazer as pazes quando completarem duzentos anos…)
Já Rosemary Clooney, fiz um pequeno comentário num post recente. A grande cantora também foi atriz, mas de poucos filmes e um grande clássico “Natal Branco” (White Christmas, 1954), com Bing Crosby.
![23j1zit[1]](http://dsaviosoares.files.wordpress.com/2010/01/23j1zit1.jpg?w=550&h=403)
Tudo (ou quase) sobre a histórica gravação do álbum Duets do Frank Sinatra.
Neste final de semana reli o livro do Phil Ramone, um dos principais produtores musicais do mundo que trabalhou com Frank Sinatra, Aretha Franklin, Barbra Streisand, Paul Mcartney, Ray Charles e outros craques da canção.
No livro “Gravando! Os Bastidores da Música.” (Editora Guarda-Chuva, 2008), Ramone narra a épica gravação do álbum Duets do Frank Sinatra. A genialidade, a bagagem musical, o temperamento explosivo, a insegurança pela idade avançada, tudo está lá. É simplesmente imperdível, para todos os fãs. O produtor narra minuciosamente todos os passos da histórica gravação – para muitos críticos e alguns fãs, não havia a necessidade de tamanha exposição pública do maior cantor do mundo.
Mas a gravação de Duets contém um detalhe importantíssimo: quase tudo que o Frankie gravou ao longo da carreira foi ao vivo. Mesmo quando gravava nas sessões de estúdio havia uma banda e um grupo de convidados. No auge de sua carreira, Sinatra era o cara que dizia: “Se eu não conseguir acertar nos primeiros takes, tem algo de errado conosco.” Como disse alguém por aí, “ao vivo faz quem sabe.”
Ramone revela o que aprendeu com o Sinatra: “o seu compromisso com a excelência foi para mim uma lição valiosa sobre a qualidade e importância do que fazemos, e, a partir do momento em que conheci e trabalhei com ele, em 1967, isso veio a constituir minha ética no trabalho.”
É impressionante o respeito que grandes músicos e cantores expressavam nas gravações. Aretha Franklin ficou receosa (“Será que vou conseguir fazer isso? Preciso escrever uma carta para o Frank para expressar o meu prazer em fazer dueto.”), já Barbra Streisand declarou-se na própria gravação, e por aí vai.
Um livro de fácil leitura, envolvente e que revela nas gravações inseguranças e detalhes de grandes cantores do Século 20, além do maior, Frank Sinatra.
“Quando você diz a alguém “Você vai gravar um dueto com Frank Sinatra”, a pessoa responde “Que maravilha! Obrigado!”. O momento mágico era quando eles ouviam a voz do Frank pela primeira vez em seus fones de ouvido – a voz mais incrível de todos os tempos. Imagine um jogador de beisebol de 22 anos, principiante, entrando em campo pela primeira vez com um dos ídolos de sua infância. Não importava quem você fosse, Sinatra o fazia se sentir como um principiante.” – Phil Ramone












O cinema e a música por excelência.