SÁVIO SOARES

Cinema e música.

O “Boêmio” concedeu uma entrevista genial à Revista Playboy.

O inesquecível Nelson Gonçalves concedeu (não diria “deu”, porque esta palavra não soaria bem aos seus ouvidos) uma entrevista à Revista Playboy em março de 1998 e foi um grande sucesso. Não se intimidou e respondeu com sinceridade sobre temas delicados – drogas, desgraças, mulheres, sexo e declínio. Nelson fez declarações surpreendentes, as quais, hoje em dia, dificilmente são reveladas do mesmo modo pelos astros da modernidade.

Em algumas respostas diretas (bem diretas!) às perguntas do jornalista, Nelson Gonçalves não mediu palavras, falou o que foi perguntado. Sinceramente, ele não estava preocupado.

 “[Sobre óculos escuros] Eu considero coisa de veado mesmo. Esse pessoal, quando começa a fazer sucesso, faz o que pode para ser entrevistado. Mas depois bota óculos escuros, tampando a cara.”“O Frank Sinatra foi me ouvir, e depois veio falar comigo. Disse: ‘Wonderful, Wonderful! Your voice is the best of the world’. Imagine o Sinatra me dizer que minha voz era a melhor do mundo.”

 [Sobre o assédio das mulheres]”Algumas eu não conseguia evitar mesmo. Dava uma ou duas com elas e caía fora. Vou lhe dizer uma coisa: tenho 78 anos e me sinto com 25. Está dito tudo, certo?

 O jornalista que o entrevistou, Bob Jungmann, após 12 horas de muito papo, disse que a entrevista rendeu principalmente porque Nelson não era de meias palavras (“às vezes a sinceridade chegava a ser incômoda, áspera”, mas depois percebeu que eram palavras honestas e despudoradas sem nenhuma preocupação com tratos ou refinamentos) Ao final da entrevista, o jornalista estava maravilhado e, sobre o grande Nelson, disse o seguinte:

A melhor definição de Nelson Gonçalves, no entanto, colhi num táxi entre o Aeroporto Santos Dumont e a Gávea. O motorista, entrado nos 60 anos, fino no gosto musical, resolveu me agradar colocando uma gravação de Betty Carter no toca-fitas. Perguntou se eu gostava e eu disse que a achava muito boa. “E de Nélson Gonçalves, você gosta?”, provoquei. Ele apertou um botão que cuspiu a fita para fora, vasculhou as lembranças por alguns instantes e batucou no painel, numa entonação quase correta: ‘…Eu quero esse corpo / que a plebe deseja / embora ele seja / prenúncio do mal’. Achou que eu não conhecia a música. Feliz ao descobrir o contrário, passou a contar casos que tinha vivido embalado ‘pela música do homem’, entremeando as passagens mais picantes com trechos antológicos da famosíssima parceria Nelson-Adelino Moreira, que se arrastou por mais de quarenta anos.

Cantarolei também alguns pedaços de música, sem me dar conta do quase ridículo da situação – passageiro e motorista soltando a voz num trânsito pesado e modorrento. Já na Rua do Horto, próximo às majestosas palmeiras imperiais do Jardim Botânico, ele lembrou uma passagem de uma música de que só me recordava vagamente (Meu Triste Long Play), e que mais tarde tive que pesquisar para reproduzir aqui, em alta fidelidade: ‘Ligue a sua eletrola / vista o seu négligé / deite-se, acabe o cigarro / que eu no cinzeiro deixei / quero sentir que você / na maciez do seu ninho / dormiu ouvindo bem baixinho / o meu triste long play’.

Virou-se então para trás, com aquela cara de quem carrega uma certeza absoluta, e sentenciou: ‘O homem é foda!’

Tem toda razão: é.

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24/11/2009 Posted by | Uncategorized | , | 2 Comentários